ARTIGOS

PAI ≠ PROGENITOR


Podemos ficar revoltados, seria normal. Podemos desejar a morte, também normal. Mas não seria muitíssimo mais interessante tentarmos entender? Disse entender, não desculpar, muito menos concordar.

O país ficou em sobressalto com a morte de Valentina. E infelizmente, estes casos não são tão raros quanto pensamos. O filicídio é um tabu por se tratar de um crime hediondo que viola leis e normas estabelecidas moral e socialmente. A sociedade falhou em proteger Valentina e falha em proteger tantas outras crianças. Saber é poder, portanto quanto mais entendermos, melhor podemos, enquanto cidadãos, intervir evitando casos futuros.

Então, o que faz com que alguém mate os próprios filhos?
Para já, é errado pensarmos que quem comete estes atos são pessoas estranhas. Não é verdade. Grande parte das vezes tratam-se de pessoas completamente “normais”, regulares e aparentemente inseridas em sociedade. O que faz com que alguém assim cometa um ato tão terrível? Esta é a grande questão, naturalmente influenciada por diversos fatores:

A. Características Pessoais (personalidade; inteligência; saúde mental)
B. Características Externas (relação com a vítima; condição socio-cultural; condição económica; problemas familiares)
C. Motivos Específicos que originam o ato (conflitos/situações especificas)

Com base nestes três fatores, há outros três pontos importantes. São eles as etapas do percurso mental que levam ao ato:

1º Ideia de Matar (a ideia da morte do outro surge de forma recorrente mas sem pensar que se possa a vir a cometer um homicídio)
2º Noção dos Erros/Defeitos do outro (amplificam-se os erros e os defeitos do outro ao ponto do seu desaparecimento poder ser justificado mas sem que a sua morte passe de um desejo não concretizado devido ao condicionamento do contexto social)
3. Aceitação da Morte (a morte do outro foi aceite ao ponto de se poder vir a ter um papel ativo no homicídio)

Após matar o próprio filho(a) é comum observarmos no homicida sintomas de depressão e/ou perturbação pós-traumática resultantes do ato que cometeram e das consequências do mesmo, nomeadamente a pena máxima jurídica. Entendemos agora melhor o possível motivo que tenha levado o pai da Valentina a cometer tentativas de suicídio após a detenção policial. Contudo, é importante compreendermos que, os sintomas referidos não refletem corretamente o verdadeiro estado mental em que o homicida se encontrava antes do ato, não tendo influenciado o mesmo. Ou seja, aparentemente não há “desculpas” com base em fatores psicológicos.

Que fiquemos chocados com casos assim. Que enchamos as redes sociais, os sites, com indignações. Mas, acima de tudo, que tenhamos informação e conhecimento para prevenir futuras ocorrências. Este crime ocorre ao nosso lado, na casa do vizinho, no bairro, na nossa rua… As crianças são as vítimas mais vulneráveis e enquanto sociedade é nosso dever fazer tudo o que está ao nosso alcance para protegê-las. E para isso a informação é, sempre, a melhor arma.

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